A DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA
Vou iniciar minhas postagens, abordando um tema que muito se comenta hoje em dia. Aliás, se comenta, se escreve, twitta e posta. Cada vez mais os recursos digitais tem tomado conta das nossas tarefas diárias. O que não se pode negar é o quanto o uso excessivo das redes sociais em aparelhos móveis vem modificando o comportamento pessoal das pessoas em seu círculo familiar, de trabalho e amigos.
Abaixo posto um texto do site Escola 24h que fala sobre doenças e tratamentos específicos que estão sendo desenvolvidos para atender os jovens que são os mais afetados, por nascerem imergidos nessa "era digital" como chamamos os dias de hoje.
- Do uso à dependência
O The Gardian, jornal espanhol, noticiou em junho que o
Centro de Saúde Mental da Criança e do Jovem, em Lleida, nordeste da Espanha,
usou pela primeira vez um tratamento específico para curar a dependência do
celular em dois adolescentes de 12 e 13 anos.
Sem
o controle dos pais, nos 18 meses de uso do aparelho, os dois jovens passavam
em média seis horas por dia ao telefone, conversando, enviando mensagens de
texto ou jogando. Para obter dinheiro e comprar cartões telefônicos, eles
inventavam histórias para os familiares, sem que os pais soubessem. Quase
reprovados na escola e com alterações de comportamento, os adolescentes foram
internados porque não conseguiam realizar as atividades normais do dia-a-dia,
sem o celular.
O
caso de excesso de uso de celulares trouxe à tona situações já ocorridas no
Japão e Inglaterra. Os efeitos colaterais da dependência do celular se
assemelham a de outros “vícios” como o de videogames , internet e drogas: baixo
rendimento escolar, irritação, introversão, comportamentos anti-sociais,
mentiras para sustentar a dependência e apresentação de sintomas de abstinência
na interrupção do acesso.
- O garoto da propaganda
No
Brasil, esses casos também existem. Não é tão relevante a tecnologia da qual a
criança e o jovem se tornam dependentes, mas, sim, o que há por trás dessa
dependência e se os pais chegam a se dar conta do problema.
Ao
falar sobre o assunto, a psicanalista Marcia Neder cita uma
crônica que saiu na Folha de São Paulo do conhecido escritor e jornalista Ruy
Castro, comparando um vizinho de cerca de 10 anos de idade - observado por ele
do terraço do seu apartamento no Leblon - com um comercial divulgado
recentemente na tevê. Na propaganda, um adolescente sentado ao computador, ouve
as broncas da mãe: "Larga essa internet, Pedro Henrique!". Ele, de
frente para a câmera e de costas para a mãe, demonstra com caretas sua irritação
com as reclamações maternas. Por fim, digita alguns controles e
"deleta" a mãe. Era o que faltava para a sua total felicidade:
livrar-se da “chata” da mãe para poder ficar quanto tempo quisesse na
internet.
No
caso do vizinho de Ruy, a mãe “chata” não existe. O menino, a partir das duas
da tarde passa o dia sentado em seu quarto, diante de uma televisão de 50
polegadas. “Mas ele não está vendo TV. Está no computador - o teclado e o
monitor ficam bem debaixo da supertela. A cena se repete pelo resto do dia e
invade a noite e a madrugada”, narra o jornalista. O menino mora na
quadra da praia, mas não aprecia e nem desfruta desse privilégio. E o escritor
conclui: “Nunca vi um adulto no dito apartamento. E, se houver, nunca foi ao
quarto do menino mandá-lo largar o teclado e ir fazer qualquer outra coisa. Mas
tanto faz se há ou não esse adulto. O guri mora sozinho”.
Márcia,
contudo, alerta para o perigo de se demonizar a tecnologia, que é tão
importante e útil na vida moderna. "Ela pode ser uma grande aliada
e facilitadora de soluções, mas não substitui a convivência familiar e as
relações afetivas", diz.
- Experiências brasileiras
Julia
Bacha de 25 anos, que finaliza Psicologia na PUC, lembra que é da geração que
passou a infância sem celular e dava o telefone da casa da amiga para a mãe,
pois não podia ir de um lugar para o outro sem avisar, e não andava sem cartão
telefônico. Seu primeiro celular, ganhou aos 15 anos, “Agora não sei como é isso, até as crianças já têm celular. Deve
ser muito feio para um adolescente andar sem um!!!!”, comenta.
Num
jantar familiar, Julia observou um menino de 6 anos, alheio a tudo, jogando,
sem parar, no SEU celular. “Um jantar em família pode ser
muito chato para um garoto, por isso naquela situação o celular me lembrou
a “chupeta” que tem o papel de acalmar a criança e de fazê-la parar de
chorar”.
Julia
relata também uma conversa que ouviu na aula de pilates. A mãe resolveu cortar
a internet de casa porque as notas da filha estavam baixas. Como a jovem tinha
um iphone, passou a usar a internet do seu celular! "Entre as formas possíveis para acessar, a jovem escolheu a mais
cara que é pagar por dado enviado e recebido, em vez de comprar um pacote
de dados da operadora ou de utilizar a internet sem fio em algum lugar onde
fosse oferecida. A conta deu CINCO MIL REAIS!!!!!!!!!!!!!!!! Não sei o
que aconteceu depois, já que não tive mais contato, mas, convenhamos, é muito
dinheiro!”.
Em
represália à proibição imposta, a mãe acabou sendo “punida” pela filha, o que
levou a psicanalista Márcia Neder a observar: “entre outras coisas isso mostra
que não se educa apenas em um ato: a educação é uma "obra aberta".
É
indiscutível, no entanto, a importância do celular em muitos momentos da vida
moderna, acrescenta Julia: “os pais ficam mais tranqüilos
com os filhos na rua e os filhos sentem-se mais independentes e seguros.
Qualquer problema pode-se pedir ajuda da onde estiver. Mas, ai do filho que não
atender o telefone mais de duas vezes seguidas: os pais quase morrem!!!! Conheço
um que sai ligando para os amigos do filho mesmo que seja às 4 da manhã!!!”
Fora
a questão de segurança, reflete Julia, não conseguimos mais viver sem o
celular: “Desaprendemos a esperar. Queremos falar “naquele” instante. Nada
de chegar em casa para ligar. Minha conta não costuma ser alta porque sou
controlada, mas tenho amigas que gastam até 600 reais por mês”.
Há
uma tendência moderna de vivermos mais confinados e de substituirmos atividades
gregárias pelas individualizadas devido aos compromissos e afazeres que são
responsáveis até por desencontros familiares. Muitos dependentes de celulares
parecem buscar ansiosamente contato com o mundo, numa tentativa de compensar a
solidão.
Usar
celular também é sinal de status, lembra Julia. “Ter um iphone está super na
moda. Uma vez fui comer sozinha no shopping Leblon e me senti um peixinho fora
d’água!!! Tinham 3 mulheres bem vestidas em mesas separadas “brincando” com
seus iphones. Ali tem internet de graça, onde se pode usar msn, orkut, google,
ler jornal online ou qualquer outra coisa que se faz em casa no PC ou no
laptop. Confesso que senti uma invejinha e no dia seguinte já estava
encomendando o meu com um amigo que ia para os Estados Unidos. Para minha falta
de sorte – ou não - estava esgotado. Existem produtos aqui nas lojas do Brasil
que fazem as mesmas coisas, mas quem já viu o iphone sabe como ele é “especial””.
É,
essas maquininhas não são só uma tentação para os adultos...
Observação: Marcia Neder Bacha é psicanalista e professora-pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Educação da USP e da UFMS e autora de "Psicanálise e Educação. Laços Refeitos" (SP: Casa do Psicólogo e CG: Ed. Da UFMS) e "A arte de formar: o feminino, o infantil e o epistemológico" (Petrópolis: Vozes).
Fonte: Escola 24h
